
Incapacidade,
de te reter.
de te voltar a ter.
Não te reproduzo, guardo apenas um detalhe de ti. Um momento. Um momento do momento. Decisivo.
Em 1932, fotografou um homem a saltar sobre uma poça de água, atrás da gare de Saint Lazare, no coração de Paris. A figura projecta-se na apática corrente líquida e a duplicidade que assume induz o olhar para o pé que quase toca na água. Ainda assim, o "momento decisivo", expressão que teoriza a obra de Bresson, surge no paralelismo que se estabelece entre o salto do homem e o cartaz ao fundo, onde se vislumbra uma eventual bailarina num esforço físico análogo.
"Para mim, a fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fracção de segundo, do significado de um acontecimento e da organização exacta das formas que o expressam", escreveu no livro "Images à Ia Sauvette", em 1952. Aí, nas linhas do prefácio "Instant décisif", desenvolveu as ideias que concebeu para a arte imagética e metodizou as suas concepções.
A redundância aparente, qual figura de estilo deste poema que Bresson capturou, dá lugar à inevitabilidade. Se a fotografia deixa o enredo suspenso, a sensibilidade traça-lhe o epílogo e consequente encontro entre o reflexo e o corpo. Como o próprio desvendou, "fotografar é colocar, na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração".
A dialéctica intemporal do preto-e-branco sustentou exclusivamente a abordagem ao real. A aura dramática e a clareza com que expôs estilhaços de tempo, exibidos paradigmaticamente na imagem da gare, caracterizou a sobriedade do trabalho que deu à luz.
À linguagem dos conceitos, uniu a da técnica. A "leica rangefinder", câmara de 35 mm, tornou-se a extensão da mente que privilegiou no decorrer das inúmeras viagens.
Numa máquina de estrutura convencional, o visor sofre um lapso de cegueira, para que o espelho se desloque para cima e a luz entre pela cortina do obturador. Isto implica uma perda momentânea com o objecto.
Com a "ragefinder", o visor telemétrico garante contacto visual abslotuto, sem quebras. Bresson, observador rigoroso e paciente, assumiu uma cumplicidade histórica com os 35mm.
Fotografias: Henri Cartier-Bresson
Texto publicado no Jornal de Notícias a 5 de Agosto de 2004

Copo para a arte. Ponto fundamental: o “Contagiarte” não é um bar. “Diria que a maior dificuldade que temos passa por fazer perceber a natureza da motivação que nos une, que algumas pessoas não entendem ao certo: isto não é um bar, é uma associação”, define Maria José Fernandes, relações públicas do Contagiarte e parte activa da ACARO (Associação Cultural de Artes Organizadas), entidade responsável pelo espaço. “Um bar tem fins lucrativos, nós não. O apoio à arte é a nossa missão: o ‘copo’ é necessário para sobreviver, para apostar nas actividades que desenvolvemos e proporcionar melhores condições aos artistas, mas não nos sustentamos no conceito ‘bar’”, precisa.
A explicação desponta a curiosidade da interrogação e apela à descrição das actividades alimentadas pelo copo, na extensão compreendida entre as segundas a sábados em que a vida percorre a privacidade do espaço – os primeiros instantes pronunciaram-se em Outubro de 2003 –, a uma média de oito mil pessoas por mês. “Teatro, artes-plásticas, música, dança, novas tecnologias e ‘workshops’ fazem parte de nós com frequência”, responde.
Fragmentos. Prestes a sugerir ao médio que acompanhe o indicador para nomear os anos de vida, o perfil do espaço recorre-se de fragmentos. Aos musicais, oferecem-se os dias: por exemplo, à quarta, o “reggae” de uns Black Uhuru ressurge na cave, onde o fragrância a cerveja intensifica reminiscências “eighties” das festas de garagem, e assume-se como alternativa ao sopro refinado do europeísmo “jazz” de um Ian Garbarek. “A ideia é ter uma opção diferente por cada piso”, diz Maria José Fernandes.
O cruzamento de propostas, que se estende a todos os dias, sobe amiúde ao primeiro andar: uma sexta-feira pode assegurar um espectáculo de dança celta, compassado pela indispensável “live performance” musical, e um sábado pode trazer uma actuação teatral. À tarde, quem sabe, um “workshop” literário entretém os primeiros sons do dia.
Contágio. Há uma outra forma de passar pelo Contagiarte: observar e descrever sem o desafogo do ponto final, porque as histórias paralelas passam sem complacência temporal. É escutar o jardim a ecoar o afago de dois lábios do mesmo sexo, passar por um transeunte perdido à procura de filtros e dar de frente com um diálogo rebuscado sobre “sessões de sexo com cadeiras de igreja”, assistir ao congestionamento progressivo do piso zero, com os finos saídos da pressão prontos a tornear mais um milímetro de barrigas dançantes, ver o amarelo avermelhado pintar de quente as paredes, seguir os desenhos volumosos a sair do tecto e ouvir as tábuas do chão antigo a gemer mecanicamente.
Já com ponto final, o serpenteado quadrado das escadas antigas, que dão acesso aos andares superiores, guia o “voyeur” rumo à proximidade artística: um sofá gasto marca o fim de cada lanço e um tronco ostenta negligentemente um braço metálico, no que se descobre ser um cinzeiro suspenso e não um candeeiro.
Entretanto, lá em baixo sai mais uma cerveja. O mecenato prossegue.
Publicado no in Jornal de Negócios em 18 de Agosto de 2005
P.S. Negrito+itálico = frase censurada ;)
Um Elton John ainda com cabelo próprio e um ansiado Manfred Mann ditaram há 34 anos, perante 30 mil pessoas, o despontar de um mito na actual senda “festivaleira” portuguesa. Vilar de Mouros nascia em 1971, sob um regime fascista que não impediu a afirmação de uma pequena freguesia minhota no Verão musical. O tempo ditou apenas mais duas edições espontâneas, uma em 1982 e outra em 1996. A partir de 1999, a fórmula estabiliza e os contornos de Vilar de Mouros, que começa hoje, são por demais conhecidos: o festival potencia definitivamente o encontro de três gerações, através da composição de um cartaz estruturado com esse objectivo; o convívio, antes da música, é a motivação central. Perante tanto segredo desvendado, o desafio proposto é metediço: o que se faz antes do evento começar e que histórias correm nos bastidores?
Enquanto o automóvel agradece o piso de algodão, o humor é a melhor estratégia para enfrentar a opção que se vislumbra. Para precaver os pneus de se confrontarem com o lamentável furo, os técnicos de obras recorreram a diversos sinais de trânsito, colocados nos pontos da estrada com protuberâncias agressivas. A particularidade é perceber que alguns dos sinais, por exemplo, alertam para a proximidade de semáforos, que, como se constata mais à frente, não existem. À falta de recursos apropriados, o remendo não deixa de ser invulgar.
Curiosidades aparte, Vilar de Mouros dá-se a conhecer debaixo de um sol intenso. Ao passo que o deleite das águas quentes do Rio Coura vai entretendo gerações diferentes de banhistas – sempre com a belíssima ponte romana da freguesia a conferir tons idílicos ao cenário –, um imponente esqueleto de metal impõe-se no horizonte, do lado de lá das águas. Chegar é então tomar nota da dicotomia, resumida ao fosso de duas margens: uma acolhe um pequeno supermercado e os finos a 60 cêntimos (hoje devem ter subido à volta de 20 cêntimos) do café com nome “Central”, como não poderia deixar de ser; com a ponte para trás, o cenário muda e a experiência “Vilar de Mouros” abraça o intruso.
O primeiro impacto, sonoro como convém, solta-se dos grilos: a música inexistente não os abafa e o respectivo canto acolhe um recinto ainda nu, pincelado timidamente por alguns contentores da Super Bock. Há borboletas a voar, pequenas flores por entre as ervas e um sino a dobrar a tranquilidade da tarde. Hoje, quando o “indie rock” de Johnny Panic se pronunciar, escutar-se-ão melodias porventura menos bucólicas, numa relva com flores pisadas e borboletas esquecidas. Mas as pessoas são a vida do festival.
Parque de concertos. A menos de uma semana da música assumir o definitivo protagonismo, o mecanismo de elevar a estrutura do certame assemelha-se ao rigor dos melhores relógios suíços. A estrutura metálica, imponente ao longe, reafirma a grandeza com a distância encurtada e introduz novos actores. Uma equipa de nove acrobatas distribui-se ao longo de seis andares de andaimes, com direito a terraço. Coordenadamente, vão passando barras de metal até ao topo: definem-se os primeiros contornos do palco principal e imagina-se a real altivez quando a aparência final adquirir forma.
Qual banda sonora de fundo, o assomo dos martelos acentua progressivamente a cadência. A construção de um novo acesso à área do recinto ocupa as batidas certeiras de seis calceteiros e, não muito distante, aproximam os quartos de banho masculinos da função terminal, que os vai converter numa das principais novidades da edição 2005. Às meninas, por sua vez, mantém-se a oferta dos tradicionais contentores, agora livres de alguma má pontaria masculina.
O sincronismo com que tudo decorre estende-se a uma pequena capela que demarca uma das fronteiras do recinto – ainda que lhe vire as costas –, onde a Brigada de Trânsito alinha os detalhes de segurança com a organização. “Estas reuniões são importantes para antecipar o que nos espera. Identifica-se o perfil de quem vem e especificidades inerentes, prevê-se a que horas o público vai chegar e quais as estradas que vai utilizar, preparam-se os parques de campismo e as acessibilidades, entre outros itens”, especifica Jorge Silva, da Porto Eventos, entidade que partilha com a Tournée a tutela da presente edição.
Com um interlocutor privilegiado, a deambulação pelo imaginário de Vilar de Mouros assegura um condimento extra. As perguntas agitam-se e a primeira é inevitável: o que motivou a separação da Música do Coração, com quem a Porto Eventos partilhou a organização nos últimos seis anos? “A Música no Coração não queria investimento local e nós sim. Essa é a diferença básica. Os novos quartos de banho e o novo acesso são indicadores concretos da valorização do espaço. A partir de Outubro define-se nova obra”, começa por indicar. “O objectivo é ter, num espaço de três a quatro anos, um parque de concertos excelente, pensado para que a população local o possa potenciar. A construção de um Museu sobre o festival também está a ser estudada, para que seja possível preencher o vazio de visitantes ao longo do ano. Isto é, o que muda em relação à Música no Coração é que antes os esforços centravam-se no palco e não nestas questões tidas como laterais”, precisa.
Senhor Alexandre. Um velho tractor passa com alguns decibéis a mais e abafa a conversa. O condutor, em orgulhosa demonstração de preciosidade motora, acena a quem os locais tratam por senhor Jorge e a imprensa refere por Jorge Silva. “Há uma história muito engraçada com o pai deste rapaz, o senhor Alexandre, que tem muitas vacas. Quando chegamos aqui há seis anos, queixou-se que o festival tinha prejudicado a qualidade do leite dos animais, depois da edição de 1996. Dizia que era do barulho e pela obrigatoriedade de ter de mudar os locais de pastagem das vacas. Não diria que o senhor Alexandre era contra o festival, mas era complicado”, explica. “Nós precisávamos destes terrenos para os parques de campismo e estacionamento. Mas lá conseguimos chegar a um acordo e, desde então, a hora zero do Vilar de Mouros – às sete horas de quinta-feira – é assinalada com uma grande banquete em casa dele. Entretanto, e devido ao actual estado de saúde do senhor, utilizamos os nossos contactos, nomeadamente com médicos, para o ajudar”, revela.
Ministério por detrás dos artistas. Além do cariz humano de um evento que assinalou o primeiro capítulo em 1971, a máquina publicitária sublinha o devido ajustamento à realidade actual de produções análogas. Ainda assim, o cariz sentimental mantém-se, mesmo com o pragmatismo dos números. “A Unicer está connosco desde o início e, mesmo que apareçam melhores propostas, há uma perspectiva consolidada. Eles evoluíram connosco na logística e melhorámos em conjunto. É o nosso Ministério da Cultura, porque muitos destes eventos não teriam lugar sem a Unicer”, afirma.
Acampar sem festival. Os 43 anos do lisboeta Vítor Duarte não contêm o entusiasmo diante a magia de Vilar de Mouros. Recorre com facilidade ao “espectacular” para adjectivar o certame, onde se estreou na edição de 1982. Este ano, acomodou-se tranquilamente com cerca de 10 “festivaleiros” – crianças incluídas – no passado sábado, muito antes do debitar das canções . As primeiras tendas não se sustentam exclusivamente na música. “É o ‘Woodstock’ português. Sou amigo da gente da terra e o convívio é delicioso. Só saio daqui quando me farto das melgas”, justifica.
“É comum ouvir-se ‘uns vão a Fátima, eu vou a Vilar de Mouros’. Há aqui uma religiosidade que não se constata em outros eventos. Conheço quem se tenha casado por se ter conhecido no festival e agora voltam com os filhos”, assegura Jorge Silva. Há casamentos por concretizar na edição de 2005?"
Publicado a 28 de Julho no in Jornal de Negócios
Fotografia: Egídio Santos