Vida além da morte
Impression: Sunrise [1873], Claude Monet
A
14 de Novembro, Paris dá à luz um amante de nenúfares. Cinco anos volvidos, o rebento Claude Monet parte com a família para Le Havre, onde cria as memórias presentes da infância. Dois anos após a morte da mãe, os 19 anos de Monet regressam a Paris na companhia da irmã Louise. Decide estudar arte, após uma primeira experiência pouco motivante com o ensino. “A escola teve sempre em mim o efeito de uma prisão e nunca me consegui habituar à ideia de lá passar nem que fossem quatro horas por dia. Sobretudo quando o sol estava convidativo, o mar estava belo e sabia tão bem andar a correr sobre as falésias, nos grandes espaços ou então a andar a brincar na água”, solta sobre as vivências em Le Havre.
Em 1870, casa com Camille, que passeia em obras como “The Walkers”. A vida traz-lhes dois filhos, Jean e Michel. Oito anos mais tarde, Camille morre. “Impressão: nascer do sol”, de 1873, apresenta-se por entre o amor de ambos em vida e dá designação ao “Impressionismo”.
Após a depressão que se socorre do trabalho, 1892 traduz-se num segundo casamento. Alice, que tinha igualmente perdido o cônjuge, torna-se na segunda esposa de Monet. Blanche, filha da nova mulher, faz crescer a família. Jean e Blanche acabam por se casar mais tarde.
À perda de visão que se vai acentuando, soma-se um novo desgosto ao tormento de Monet: Jean morre em 1914. Até ao fim da vida, que se faz sentir 12 anos mais tarde, Blanche acompanha o padrasto no desgosto e ajuda o artista nas vicissitudes caseiras.
A 5 de Dezembro de 1923, uma encomenda suspende-se à porta de Monet: um lote de nenúfares japoneses, os que mais lhe compõem a alma, são entregues. Um dia depois, mais uma morte, desta vez a sua, vítima de cancro no pulmão. A única a que a luz da sua pintura não consolou a dor. Mas talvez já não fosse pertinente.
Publicado por Germano •
03:31 PM
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Forma de ave
The Broken Column [1944] • Frida Kahlo
O olhar confrange-se perante a ameaça de uma dor tão imensa, suspensa em dimensões irrespiráveis - a tela contorna-se ao longo de um impiedoso espaço saturado (a exposição no CCB assim se expõe perante a presente prosa). A aridez da paisagem, penetrada pela auto-representação de Frida, trespassa a esperança que o azul convulso do céu permite ingenuamente especular: há lágrimas cuja violência se anseia transformada em regeneração da terra, onde se exige vida; mas semelhante realidade, por verosímil que se conceba, aflige-se no grito imenso que Kahlo pinta – não há esperança que sobreviva à dimensão agonizante retratada. E, diante de “The Broken Column” [1944], o que magoa indiscriminadamente é o olhar lancinante que se dispõe por debaixo das sobrancelhas unidas em forma de ave. "I drank to drown my pain, but the damned pain learned how to swim, and now I am overwhelmed by this decent and good behavior."
Publicado por Germano •
03:21 PM
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