abril 11, 2006

Decisivo

categoria: FotografiaReportagem

Incapacidade,

de te reter.
de te voltar a ter.

Não te reproduzo, guardo apenas um detalhe de ti. Um momento. Um momento do momento. Decisivo.



Instantes de rara mestria
Teoria do "momento decisivo" notabilizou Bresson • Celebrizou a Leica Rangefinder, câmara de 35 mm

S
e um génio pode ser definido pela fragilidade de um momento, somente na forma de um instante decisivo se suporta tamanha pretensão. Henri Cartier-Bresson imortalizou-se com um desses fragmentos raros que o deuses permitem aos intrépidos.

Em 1932, fotografou um homem a saltar sobre uma poça de água, atrás da gare de Saint Lazare, no coração de Paris. A figura projecta-se na apática corrente líquida e a duplicidade que assume induz o olhar para o pé que quase toca na água. Ainda assim, o "momento decisivo", expressão que teoriza a obra de Bresson, surge no paralelismo que se estabelece entre o salto do homem e o cartaz ao fundo, onde se vislumbra uma eventual bailarina num esforço físico análogo.

"Para mim, a fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fracção de segundo, do significado de um acontecimento e da organização exacta das formas que o expressam", escreveu no livro "Images à Ia Sauvette", em 1952. Aí, nas linhas do prefácio "Instant décisif", desenvolveu as ideias que concebeu para a arte imagética e metodizou as suas concepções.

A fotografia, por si só, não me interessa, mas a reportagem sim, tal como a comunicação entre o mundo e o homem, através deste instrumento maravilhoso do tamanho da mão e que nos faz passar despercebidos. E assim participamos. É uma dança.
Henri Cartier-Bresson
A inserção dos elementos na semântica visual da imagem de 1932 assume um óbvio teor absortivo, pelo rigor que denota, porventura fruto de um cuidada análise. "A fotografia, por si só, não me interessa, mas a reportagem sim, tal como a comunicação entre o mundo e o homem, através deste instrumento maravilhoso do tamanho da mão e que nos faz passar despercebidos. E assim participamos. É uma dança", confessou.

A redundância aparente, qual figura de estilo deste poema que Bresson capturou, dá lugar à inevitabilidade. Se a fotografia deixa o enredo suspenso, a sensibilidade traça-lhe o epílogo e consequente encontro entre o reflexo e o corpo. Como o próprio desvendou, "fotografar é colocar, na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração".

A dialéctica intemporal do preto-e-branco sustentou exclusivamente a abordagem ao real. A aura dramática e a clareza com que expôs estilhaços de tempo, exibidos paradigmaticamente na imagem da gare, caracterizou a sobriedade do trabalho que deu à luz.

À linguagem dos conceitos, uniu a da técnica. A "leica rangefinder", câmara de 35 mm, tornou-se a extensão da mente que privilegiou no decorrer das inúmeras viagens.

Numa máquina de estrutura convencional, o visor sofre um lapso de cegueira, para que o espelho se desloque para cima e a luz entre pela cortina do obturador. Isto implica uma perda momentânea com o objecto.

Com a "ragefinder", o visor telemétrico garante contacto visual abslotuto, sem quebras. Bresson, observador rigoroso e paciente, assumiu uma cumplicidade histórica com os 35mm.


Fotografias: Henri Cartier-Bresson
Texto publicado no Jornal de Notícias a 5 de Agosto de 2004

publicado por Germano • abril 11, 2006 06:16 PM • TrackBack


Comentários


Comente









Lembrar-me da sua informação pessoal?