abril 27, 2006

Sentido Inverso

categoria: Textos soltos

I a X


1 - Se te lançam uma OPA, faz publicidade como nós.

2 – Três amigos: um conhece dois, dois conhecem apenas um. Lado a lado num mesmo sofá, o mais conhecedor está ao centro. O dilema de “um que conhece dois” não é simplesmente comunicar, mas antes saber como gerir a comunicação em dois sentidos – a que se transmite e a que se recebe.

3 – O falhanço subtil da democracia é o povo: os que não sabem; os que nunca tiveram a oportunidade de saber; os que não sabem como saber; os que sabem mal; os que não querem saber de todo; os que sabem, porque é do povo que saem os eleitos. E depois há os jornalistas.

4 - Pérez-Reverte diz que, por natureza, “todos os homens são filhos da puta”. Se o tom for religioso, Deus está em forma.

5 - Face da realidade mediática: a verdade na notícia anda receosa do pudor. O mundo que se lê, ouve ou vê nem sempre é igual ao de quem escreve e/ou edita - o problema não é da leitura, é do que se sabe e não se conta. Fica por evidenciar se os media podem ganhar mais com o círculo invertido - a verdade nem sempre é vendável.

6 - O elemento silencioso de um grupo reúne o item chave da participação: a observação. A imaginação, por sua vez, alimenta o espírito susceptível do presente ausente.

7 - Entre os diversos fenómenos que orienta, a vida entrega-se repetidas vezes em duas assumpções: em tamanho e em valor. O gato morto na estrada sensibiliza o dedo que esmaga a formiga na mesa - a vida que se vê; o milionário que poderia ser apenas rico se humanizasse a distribuição da riqueza pela mão-de-obra humilde garante da abundância - a vida que se suga.

8 - A estupidificação promovida pelos media é propaganda comprometedora da preguiça de conhecimento e lucidez intelectual. Quão pior é a oferta, mais lucrativo é o retorno e menos esclarecido o sujeito. Mas, diante da imoralidade de não querer/saber ensinar, a ameaça última vislumbra também a resignação à facilidade de não aprender.

9 - Nietzche diz que "é pelas suas virtudes que se é melhor castigado". Com certeza que não se referia aos políticos profissionais.

10 - Face ao criminoso comum, o Estado de alguns homens de hoje possui o requinte constitucional de poder roubar com legitimidade. Ainda assim, tem-se apenas limitado a roubar.



XI a XX

11 - Se o léxico fosse gestor de topo do Banco de Portugal, falar tornar-se-ia perenemente luxuoso, ainda que imoral, cinco anos volvidos.

12 - O socialismo actual tem o melhor dos aforismos: esforça-se por soar bem.

13 - O azar não é numérico, apenas incompreendido.

14 - Se "se" fosse real, um facto uno sujeitar-se-ia indefinidamente à inconcretização.

15 - O livre-arbítrio é delírio filosófico: a vontade tem sempre vontade.

16 - A escrita é iliterada: encerra linguagem, mas incompreende-se.

17 - As canções assumidamente obscuras e violentamente libertadoras são a dádiva artística do Diabo.

18 - O vício é carente - requer a integralidade da atenção.

19 - O lamento eterno da beleza, que se segregou, é ter renegado a fealdade, que se socializou.

20 - O capitalismo é o superego da justiça social; já a imoralidade é o inconsciente do capitalismo.


XXI a XXX


21 - O milagre da estrada é ter rumo.
[fotografia: life in mono • Kalon Edser]

22 - Se 1X tem 1000 e 1000Y têm 1, 1X pode ter 500 e distribuir fatia equivalente por 1000Y, que assim transformar-se-iam em 1000Y=1+500. Ao distribuir-se equitativamente 500 por 1000Y, que possuem individualmente 0,001 antes da redistribuição de 500, cada Y passa a possuir 0,501. Ou seja, o patrão X continua a ser o que possui imensamente mais, mas o assalariado individual aumenta o poder de compra. Consequentemente, o patrão do produto H, que não é o mesmo produto disponibilizado pelo patrão X, pode vender mais ao assalariado do patrão X. Na eventualidade da fórmula se estender a todos os patrões, a capacidade individual de adquirir bens aumenta em múltiplos sentidos - para os bens essenciais e menos determinantes. Todavia, o poder de compra aumenta, mas não a equidade - para essa não há fórmula, apenas imaginária moralidade e manifesta impossibilidade.

23 - Se a preguiça se trabalha no prazer individual, não há razão para ser recompensada como voluntarismo.

24 - O talento das palavras delimita a fronteira entre a verosimilhança e a realidade.

25 - Andrei tem quatro anos, mas não sabe o que isso significa. Andrei não sabe o que é uma pergunta e uma resposta. Andrei não fala, não gesticula, não vê; não ouve, não sente, não cheira, nem prova; não ocupa matéria. Ainda assim, com palavras, Andrei simplesmente é. A existência tem significação além da condição de vida testemunhada - é o milagre de Deus.

26 - A mente cansada é feliz; a por cansar é irrealizada.

27 – A fortuna é um logro do bem-estar.

28 – O pensamento é charmoso por não exigir fazer o menor sentido.

29 - A falácia do pensador é pensar que pensa bem.

30 – A insónia permanente de pensar é um pesadelo.


XXXI a XL

31 – O lapso da pretensão é pretender em vez de ser.

32 – Soar bem é ilusionismo vulgar.

33 – À solta, o inconsciente atropela-se.

34 – Porque se muta por si mesma, a palavra não é tecnológica. Até ver.

35 – A fantasia da verdade é saber a verdade acerca de si mesma.

publicado por Germano • 12:46 PMComentários [ 0 ]

abril 11, 2006

Decisivo

categoria: Fotografia

Incapacidade,

de te reter.
de te voltar a ter.

Não te reproduzo, guardo apenas um detalhe de ti. Um momento. Um momento do momento. Decisivo.



Instantes de rara mestria
Teoria do "momento decisivo" notabilizou Bresson • Celebrizou a Leica Rangefinder, câmara de 35 mm

S
e um génio pode ser definido pela fragilidade de um momento, somente na forma de um instante decisivo se suporta tamanha pretensão. Henri Cartier-Bresson imortalizou-se com um desses fragmentos raros que o deuses permitem aos intrépidos.

Em 1932, fotografou um homem a saltar sobre uma poça de água, atrás da gare de Saint Lazare, no coração de Paris. A figura projecta-se na apática corrente líquida e a duplicidade que assume induz o olhar para o pé que quase toca na água. Ainda assim, o "momento decisivo", expressão que teoriza a obra de Bresson, surge no paralelismo que se estabelece entre o salto do homem e o cartaz ao fundo, onde se vislumbra uma eventual bailarina num esforço físico análogo.

"Para mim, a fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fracção de segundo, do significado de um acontecimento e da organização exacta das formas que o expressam", escreveu no livro "Images à Ia Sauvette", em 1952. Aí, nas linhas do prefácio "Instant décisif", desenvolveu as ideias que concebeu para a arte imagética e metodizou as suas concepções.

A fotografia, por si só, não me interessa, mas a reportagem sim, tal como a comunicação entre o mundo e o homem, através deste instrumento maravilhoso do tamanho da mão e que nos faz passar despercebidos. E assim participamos. É uma dança.
Henri Cartier-Bresson
A inserção dos elementos na semântica visual da imagem de 1932 assume um óbvio teor absortivo, pelo rigor que denota, porventura fruto de um cuidada análise. "A fotografia, por si só, não me interessa, mas a reportagem sim, tal como a comunicação entre o mundo e o homem, através deste instrumento maravilhoso do tamanho da mão e que nos faz passar despercebidos. E assim participamos. É uma dança", confessou.

A redundância aparente, qual figura de estilo deste poema que Bresson capturou, dá lugar à inevitabilidade. Se a fotografia deixa o enredo suspenso, a sensibilidade traça-lhe o epílogo e consequente encontro entre o reflexo e o corpo. Como o próprio desvendou, "fotografar é colocar, na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração".

A dialéctica intemporal do preto-e-branco sustentou exclusivamente a abordagem ao real. A aura dramática e a clareza com que expôs estilhaços de tempo, exibidos paradigmaticamente na imagem da gare, caracterizou a sobriedade do trabalho que deu à luz.

À linguagem dos conceitos, uniu a da técnica. A "leica rangefinder", câmara de 35 mm, tornou-se a extensão da mente que privilegiou no decorrer das inúmeras viagens.

Numa máquina de estrutura convencional, o visor sofre um lapso de cegueira, para que o espelho se desloque para cima e a luz entre pela cortina do obturador. Isto implica uma perda momentânea com o objecto.

Com a "ragefinder", o visor telemétrico garante contacto visual abslotuto, sem quebras. Bresson, observador rigoroso e paciente, assumiu uma cumplicidade histórica com os 35mm.


Fotografias: Henri Cartier-Bresson
Texto publicado no Jornal de Notícias a 5 de Agosto de 2004

publicado por Germano • 06:16 PMComentários [ 0 ]

As cores da cidade...

categoria: Design
Imagem: Travis Smith • Seempieces

... ou uma mímica dos homens.

publicado por Germano • 05:59 PMComentários [ 2 ]

abril 05, 2006

"Charlot the Harlot"...

categoria: Fotografia
Fotografia: Lars Raun

... ou uma coreografia da liberdade.

publicado por Germano • 08:47 PMComentários [ 0 ]

abril 04, 2006

Sem título

categoria: Fotografia
Fotografia: Diamantino Mendes

publicado por Germano • 04:17 PMComentários [ 0 ]

Vida além da morte

categoria: Pintura
Impression: Sunrise [1873], Claude Monet

A
14 de Novembro, Paris dá à luz um amante de nenúfares. Cinco anos volvidos, o rebento Claude Monet parte com a família para Le Havre, onde cria as memórias presentes da infância. Dois anos após a morte da mãe, os 19 anos de Monet regressam a Paris na companhia da irmã Louise. Decide estudar arte, após uma primeira experiência pouco motivante com o ensino. “A escola teve sempre em mim o efeito de uma prisão e nunca me consegui habituar à ideia de lá passar nem que fossem quatro horas por dia. Sobretudo quando o sol estava convidativo, o mar estava belo e sabia tão bem andar a correr sobre as falésias, nos grandes espaços ou então a andar a brincar na água”, solta sobre as vivências em Le Havre.

Em 1870, casa com Camille, que passeia em obras como “The Walkers”. A vida traz-lhes dois filhos, Jean e Michel. Oito anos mais tarde, Camille morre. “Impressão: nascer do sol”, de 1873, apresenta-se por entre o amor de ambos em vida e dá designação ao “Impressionismo”.

Após a depressão que se socorre do trabalho, 1892 traduz-se num segundo casamento. Alice, que tinha igualmente perdido o cônjuge, torna-se na segunda esposa de Monet. Blanche, filha da nova mulher, faz crescer a família. Jean e Blanche acabam por se casar mais tarde.

À perda de visão que se vai acentuando, soma-se um novo desgosto ao tormento de Monet: Jean morre em 1914. Até ao fim da vida, que se faz sentir 12 anos mais tarde, Blanche acompanha o padrasto no desgosto e ajuda o artista nas vicissitudes caseiras.

A 5 de Dezembro de 1923, uma encomenda suspende-se à porta de Monet: um lote de nenúfares japoneses, os que mais lhe compõem a alma, são entregues. Um dia depois, mais uma morte, desta vez a sua, vítima de cancro no pulmão. A única a que a luz da sua pintura não consolou a dor. Mas talvez já não fosse pertinente.

publicado por Germano • 03:31 PMComentários [ 1 ]

Forma de ave

categoria: Pintura
The Broken Column [1944] • Frida Kahlo

O olhar confrange-se perante a ameaça de uma dor tão imensa, suspensa em dimensões irrespiráveis - a tela contorna-se ao longo de um impiedoso espaço saturado (a exposição no CCB assim se expõe perante a presente prosa). A aridez da paisagem, penetrada pela auto-representação de Frida, trespassa a esperança que o azul convulso do céu permite ingenuamente especular: há lágrimas cuja violência se anseia transformada em regeneração da terra, onde se exige vida; mas semelhante realidade, por verosímil que se conceba, aflige-se no grito imenso que Kahlo pinta – não há esperança que sobreviva à dimensão agonizante retratada. E, diante de “The Broken Column” [1944], o que magoa indiscriminadamente é o olhar lancinante que se dispõe por debaixo das sobrancelhas unidas em forma de ave. "I drank to drown my pain, but the damned pain learned how to swim, and now I am overwhelmed by this decent and good behavior."
publicado por Germano • 03:21 PMComentários [ 1 ]

Vulnerabilidade

categoria: Fotografia
Fotografia: Garrit Pieper

publicado por Germano • 03:10 PMComentários [ 0 ]

abril 03, 2006

Mecenato em quatro pisos

categoria: Reportagem


D
uzentos anos após ter adquirido a forma de casa senhorial, e já depois de ter assumido os contornos académicos de república de estudantes, os traços cicatrizados do edifício que ostenta o número 372 da descomplexada Rua Álvares Cabral, no Porto, inscreve “Contagiarte” na fachada. Com a arte enquanto “leit motiv”, por aqui coabitam as mais diversas linguagens, com ou sem forma física: a invisibilidade dos sons varre os 900 metros quadrados interiores do espaço, seja sob as urbano-depressivas pautas intuitivas de uns Joy Division, através das pinceladas góticas do “rock” charmoso de um Nick Cave ou no revivalismo estético-sonoro de uns BMRC; os quatro pisos – cave, rés-do-chão, primeiro e segundo andares, rematados pelo idílio aconchegante de um pequeno jardim – espreitam rastas compridas sobre o descuido detalhado de roupas largas ou pólos despidos a abraçar uma camisa da moda, num eclectismo que aceita camisolas com o camuflado pouco discreto dos trajes militares; ao passo que o piso zero aceita a confraternização como pretexto para saborear o amarelo fresco de uma Super Bock, o andar de cima vislumbra os exercícios de arte contemporânea oferecidos pela empenho delicado de uma artista nocturna, entregue voluntariamente a uma sala de ensaio vazia. E tudo ocorre em simultâneo.

Copo para a arte. Ponto fundamental: o “Contagiarte” não é um bar. “Diria que a maior dificuldade que temos passa por fazer perceber a natureza da motivação que nos une, que algumas pessoas não entendem ao certo: isto não é um bar, é uma associação”, define Maria José Fernandes, relações públicas do Contagiarte e parte activa da ACARO (Associação Cultural de Artes Organizadas), entidade responsável pelo espaço. “Um bar tem fins lucrativos, nós não. O apoio à arte é a nossa missão: o ‘copo’ é necessário para sobreviver, para apostar nas actividades que desenvolvemos e proporcionar melhores condições aos artistas, mas não nos sustentamos no conceito ‘bar’”, precisa.

A explicação desponta a curiosidade da interrogação e apela à descrição das actividades alimentadas pelo copo, na extensão compreendida entre as segundas a sábados em que a vida percorre a privacidade do espaço – os primeiros instantes pronunciaram-se em Outubro de 2003 –, a uma média de oito mil pessoas por mês. “Teatro, artes-plásticas, música, dança, novas tecnologias e ‘workshops’ fazem parte de nós com frequência”, responde.

Há uma outra forma de passar pelo Contagiarte: observar e descrever sem o desafogo do ponto final, porque as histórias paralelas passam sem complacência temporal. É escutar o jardim a ecoar o afago de dois lábios do mesmo sexo, passar por um transeunte perdido à procura de filtros e dar de frente com um diálogo rebuscado sobre “sessões de sexo com cadeiras de igreja”

Fragmentos. Prestes a sugerir ao médio que acompanhe o indicador para nomear os anos de vida, o perfil do espaço recorre-se de fragmentos. Aos musicais, oferecem-se os dias: por exemplo, à quarta, o “reggae” de uns Black Uhuru ressurge na cave, onde o fragrância a cerveja intensifica reminiscências “eighties” das festas de garagem, e assume-se como alternativa ao sopro refinado do europeísmo “jazz” de um Ian Garbarek. “A ideia é ter uma opção diferente por cada piso”, diz Maria José Fernandes.
O cruzamento de propostas, que se estende a todos os dias, sobe amiúde ao primeiro andar: uma sexta-feira pode assegurar um espectáculo de dança celta, compassado pela indispensável “live performance” musical, e um sábado pode trazer uma actuação teatral. À tarde, quem sabe, um “workshop” literário entretém os primeiros sons do dia.

Contágio. Há uma outra forma de passar pelo Contagiarte: observar e descrever sem o desafogo do ponto final, porque as histórias paralelas passam sem complacência temporal. É escutar o jardim a ecoar o afago de dois lábios do mesmo sexo, passar por um transeunte perdido à procura de filtros e dar de frente com um diálogo rebuscado sobre “sessões de sexo com cadeiras de igreja”, assistir ao congestionamento progressivo do piso zero, com os finos saídos da pressão prontos a tornear mais um milímetro de barrigas dançantes, ver o amarelo avermelhado pintar de quente as paredes, seguir os desenhos volumosos a sair do tecto e ouvir as tábuas do chão antigo a gemer mecanicamente.
Já com ponto final, o serpenteado quadrado das escadas antigas, que dão acesso aos andares superiores, guia o “voyeur” rumo à proximidade artística: um sofá gasto marca o fim de cada lanço e um tronco ostenta negligentemente um braço metálico, no que se descobre ser um cinzeiro suspenso e não um candeeiro.

Entretanto, lá em baixo sai mais uma cerveja. O mecenato prossegue.


Publicado no in Jornal de Negócios em 18 de Agosto de 2005

P.S. Negrito+itálico = frase censurada ;)

publicado por Germano • 09:26 PMComentários [ 3 ]

Festival Despido

categoria: Reportagem

Um Elton John ainda com cabelo próprio e um ansiado Manfred Mann ditaram há 34 anos, perante 30 mil pessoas, o despontar de um mito na actual senda “festivaleira” portuguesa. Vilar de Mouros nascia em 1971, sob um regime fascista que não impediu a afirmação de uma pequena freguesia minhota no Verão musical. O tempo ditou apenas mais duas edições espontâneas, uma em 1982 e outra em 1996. A partir de 1999, a fórmula estabiliza e os contornos de Vilar de Mouros, que começa hoje, são por demais conhecidos: o festival potencia definitivamente o encontro de três gerações, através da composição de um cartaz estruturado com esse objectivo; o convívio, antes da música, é a motivação central. Perante tanto segredo desvendado, o desafio proposto é metediço: o que se faz antes do evento começar e que histórias correm nos bastidores?

A
lgures num Minho verde tocado pelo calor, uma outrora estrada penosa vizinha de Caminha surge com um competente asfalto remodelado. Com a foz situada em Vilar de Mouros, a via acolhe uma azáfama previsível de máquinas e tractores, debruçados sobre pormenores rodoviários por limar. A nove dias de acolher o já tradicional surto anual de carros que se adivinha, os preparativos do histórico festival fazem-se sentir a cerca de 10 quilómetros do recinto.

Enquanto o automóvel agradece o piso de algodão, o humor é a melhor estratégia para enfrentar a opção que se vislumbra. Para precaver os pneus de se confrontarem com o lamentável furo, os técnicos de obras recorreram a diversos sinais de trânsito, colocados nos pontos da estrada com protuberâncias agressivas. A particularidade é perceber que alguns dos sinais, por exemplo, alertam para a proximidade de semáforos, que, como se constata mais à frente, não existem. À falta de recursos apropriados, o remendo não deixa de ser invulgar.

Curiosidades aparte, Vilar de Mouros dá-se a conhecer debaixo de um sol intenso. Ao passo que o deleite das águas quentes do Rio Coura vai entretendo gerações diferentes de banhistas – sempre com a belíssima ponte romana da freguesia a conferir tons idílicos ao cenário –, um imponente esqueleto de metal impõe-se no horizonte, do lado de lá das águas. Chegar é então tomar nota da dicotomia, resumida ao fosso de duas margens: uma acolhe um pequeno supermercado e os finos a 60 cêntimos (hoje devem ter subido à volta de 20 cêntimos) do café com nome “Central”, como não poderia deixar de ser; com a ponte para trás, o cenário muda e a experiência “Vilar de Mouros” abraça o intruso.

O primeiro impacto, sonoro como convém, solta-se dos grilos: a música inexistente não os abafa e o respectivo canto acolhe um recinto ainda nu, pincelado timidamente por alguns contentores da Super Bock. Há borboletas a voar, pequenas flores por entre as ervas e um sino a dobrar a tranquilidade da tarde. Hoje, quando o “indie rock” de Johnny Panic se pronunciar, escutar-se-ão melodias porventura menos bucólicas, numa relva com flores pisadas e borboletas esquecidas. Mas as pessoas são a vida do festival.

Parque de concertos. A menos de uma semana da música assumir o definitivo protagonismo, o mecanismo de elevar a estrutura do certame assemelha-se ao rigor dos melhores relógios suíços. A estrutura metálica, imponente ao longe, reafirma a grandeza com a distância encurtada e introduz novos actores. Uma equipa de nove acrobatas distribui-se ao longo de seis andares de andaimes, com direito a terraço. Coordenadamente, vão passando barras de metal até ao topo: definem-se os primeiros contornos do palco principal e imagina-se a real altivez quando a aparência final adquirir forma.

Vilar de Mouros dá-se a conhecer debaixo de um sol intenso. Ao passo que o deleite das águas quentes do Rio Coura vai entretendo gerações diferentes de banhistas – sempre com a belíssima ponte romana da freguesia a conferir tons idílicos ao cenário –, um imponente esqueleto de metal impõe-se no horizonte, do lado de lá das águas.

Qual banda sonora de fundo, o assomo dos martelos acentua progressivamente a cadência. A construção de um novo acesso à área do recinto ocupa as batidas certeiras de seis calceteiros e, não muito distante, aproximam os quartos de banho masculinos da função terminal, que os vai converter numa das principais novidades da edição 2005. Às meninas, por sua vez, mantém-se a oferta dos tradicionais contentores, agora livres de alguma má pontaria masculina.

O sincronismo com que tudo decorre estende-se a uma pequena capela que demarca uma das fronteiras do recinto – ainda que lhe vire as costas –, onde a Brigada de Trânsito alinha os detalhes de segurança com a organização. “Estas reuniões são importantes para antecipar o que nos espera. Identifica-se o perfil de quem vem e especificidades inerentes, prevê-se a que horas o público vai chegar e quais as estradas que vai utilizar, preparam-se os parques de campismo e as acessibilidades, entre outros itens”, especifica Jorge Silva, da Porto Eventos, entidade que partilha com a Tournée a tutela da presente edição.

Com um interlocutor privilegiado, a deambulação pelo imaginário de Vilar de Mouros assegura um condimento extra. As perguntas agitam-se e a primeira é inevitável: o que motivou a separação da Música do Coração, com quem a Porto Eventos partilhou a organização nos últimos seis anos? “A Música no Coração não queria investimento local e nós sim. Essa é a diferença básica. Os novos quartos de banho e o novo acesso são indicadores concretos da valorização do espaço. A partir de Outubro define-se nova obra”, começa por indicar. “O objectivo é ter, num espaço de três a quatro anos, um parque de concertos excelente, pensado para que a população local o possa potenciar. A construção de um Museu sobre o festival também está a ser estudada, para que seja possível preencher o vazio de visitantes ao longo do ano. Isto é, o que muda em relação à Música no Coração é que antes os esforços centravam-se no palco e não nestas questões tidas como laterais”, precisa.

Senhor Alexandre. Um velho tractor passa com alguns decibéis a mais e abafa a conversa. O condutor, em orgulhosa demonstração de preciosidade motora, acena a quem os locais tratam por senhor Jorge e a imprensa refere por Jorge Silva. “Há uma história muito engraçada com o pai deste rapaz, o senhor Alexandre, que tem muitas vacas. Quando chegamos aqui há seis anos, queixou-se que o festival tinha prejudicado a qualidade do leite dos animais, depois da edição de 1996. Dizia que era do barulho e pela obrigatoriedade de ter de mudar os locais de pastagem das vacas. Não diria que o senhor Alexandre era contra o festival, mas era complicado”, explica. “Nós precisávamos destes terrenos para os parques de campismo e estacionamento. Mas lá conseguimos chegar a um acordo e, desde então, a hora zero do Vilar de Mouros – às sete horas de quinta-feira – é assinalada com uma grande banquete em casa dele. Entretanto, e devido ao actual estado de saúde do senhor, utilizamos os nossos contactos, nomeadamente com médicos, para o ajudar”, revela.

Ministério por detrás dos artistas. Além do cariz humano de um evento que assinalou o primeiro capítulo em 1971, a máquina publicitária sublinha o devido ajustamento à realidade actual de produções análogas. Ainda assim, o cariz sentimental mantém-se, mesmo com o pragmatismo dos números. “A Unicer está connosco desde o início e, mesmo que apareçam melhores propostas, há uma perspectiva consolidada. Eles evoluíram connosco na logística e melhorámos em conjunto. É o nosso Ministério da Cultura, porque muitos destes eventos não teriam lugar sem a Unicer”, afirma.

É comum ouvir-se ‘uns vão a Fátima, eu vou a Vilar de Mouros’. Há aqui uma religiosidade que não se constata em outros eventos. Conheço quem se tenha casado por se ter conhecido no festival e agora voltam com os filhos.
JORGE SILVA
organização
Nas produções em que as mais distintas marcas garantem o colorido publicitário, os euros resgatados dos investimentos empresariais permitem o essencial: música. A fluidez do diálogo mergulha nos caprichos dos artistas. “Quando o falecido Joe Strummer passou por aqui, pediu oito aquecedores em pleno Agosto. Disse que estava com frio. Este ano, há um músico que quer uma cozinha só para ele, porque é vegetariano. É certo que surgem, por vezes, alguns pedidos excêntricos, mas é importante garantir a comodidade dos artistas. Por exemplo, disponibilizamos uma zona de massagens”, expõe. “Quanto aos ‘cachets’, depende do contrato. Pode envolver adiantamentos, pagamentos na véspera... É consoante o acordado”, detalha.

Acampar sem festival. Os 43 anos do lisboeta Vítor Duarte não contêm o entusiasmo diante a magia de Vilar de Mouros. Recorre com facilidade ao “espectacular” para adjectivar o certame, onde se estreou na edição de 1982. Este ano, acomodou-se tranquilamente com cerca de 10 “festivaleiros” – crianças incluídas – no passado sábado, muito antes do debitar das canções . As primeiras tendas não se sustentam exclusivamente na música. “É o ‘Woodstock’ português. Sou amigo da gente da terra e o convívio é delicioso. Só saio daqui quando me farto das melgas”, justifica.

“É comum ouvir-se ‘uns vão a Fátima, eu vou a Vilar de Mouros’. Há aqui uma religiosidade que não se constata em outros eventos. Conheço quem se tenha casado por se ter conhecido no festival e agora voltam com os filhos”, assegura Jorge Silva. Há casamentos por concretizar na edição de 2005?"


Publicado a 28 de Julho no in Jornal de Negócios

Fotografia: Egídio Santos

publicado por Germano • 09:18 PMComentários [ 0 ]